DOSSIER 08

Zoonoses - Karma Virus parte 2

Publicado a 3 min de leituraAtualizado a
A cluster of virus particles rendered in yellow, green and violet against black

As epidemias de doenças infecciosas são mais prováveis nas zonas de desflorestação e de monocultura, segundo um estudo que sugere que as epidemias tenderão a aumentar à medida que a biodiversidade diminui.

A alteração do uso do solo é um fator importante no aparecimento de vírus zoonóticos como a Covid-19 e de doenças de transmissão vetorial como a malária, indica o artigo, publicado na quarta-feira na Frontiers in Veterinary Science.

Num ecossistema saudável, as doenças são filtradas e bloqueadas por uma série de processos permitidos por uma floresta saudável e rica em biodiversidade. Quando isso é substituído por monoculturas, plantações de palmeiras, campos de soja ou blocos de eucaliptos, algumas espécies essenciais a esse equilíbrio morrem, deixando as mais nocivas, como os ratos e os mosquitos, desenvolver-se e propagar agentes patogénicos. O resultado é uma perda da regulação natural das doenças.

Os investigadores examinaram a correlação entre as tendências dos espaços florestais, das plantações, da população e das doenças no mundo, utilizando estatísticas de instituições internacionais como a Organização Mundial da Saúde, o Banco Mundial, a Organização para a Alimentação e a Agricultura e a base de dados epidémica Gideon. Ao longo do período de estudo de 1990 a 2016, isso abrangeu 3884 surtos de 116 doenças zoonóticas que atravessaram a barreira das espécies e 1996 surtos de 69 doenças infecciosas de transmissão vetorial, principalmente transmitidas por mosquitos, carraças ou moscas.

O documento mostra que as epidemias aumentaram com o tempo, enquanto as plantações se desenvolveram rapidamente e o coberto florestal global diminuiu progressivamente.Os autores reforçam a sua argumentação com múltiplas referências a estudos de casos individuais que evidenciam as ligações entre as epidemias e a alteração do uso do solo.

No Brasil, os cientistas demonstraram que a desflorestação aumenta os riscos de surtos de malária. No Sudeste Asiático, estudos mostraram como o desbravamento das florestas favorece o mosquito Darlingi, vetor de várias doenças. A perda de florestas primárias foi também identificada como um fator do aparecimento do Ébola na África Ocidental e do reaparecimento da leishmaniose transmitida por artrópodes.

O novo estudo acrescenta-se a um conjunto crescente de provas de que os vírus são mais suscetíveis de se transmitir aos humanos ou aos animais se estes viverem em ecossistemas perturbados pelo homem, ou nas suas imediações, como florestas recentemente desbravadas ou pântanos drenados para terrenos agrícolas, projetos mineiros ou projetos residenciais.

Isto é moldado pelos modelos comerciais e pelo comportamento dos consumidores. Um quarto da perda mundial de florestas deve-se à produção de produtos de base como a carne de vaca, a soja, o óleo de palma e a fibra de madeira. A exploração mineira acrescenta-se a este problema ao contaminar os rios e os ribeiros que são vitais para um ecossistema resiliente, para o sequestro do carbono e para a qualidade dos solos.

Toda a gente na área da saúde planetária está preocupada com o que está a acontecer à biodiversidade, ao clima e à saúde pública.O stress ecossistémico aumenta.

A Amazónia está próxima de um ponto de viragem devido às alterações climáticas, o que não é nada bom para o ecossistema mundial. Se atingirmos o ponto de viragem, os resultados serão muito maus em termos de seca, de incêndios e, claro, em termos de doença.

Temos de ter em conta os custos da saúde pública quando pensamos em novas plantações ou minas. Os riscos são primeiro para as populações locais, mas depois para o mundo inteiro, porque vimos com a Covid a que velocidade as doenças se podem propagar.

A solução para estas crises não reside apenas em pôr fim à nossa guerra contra a natureza, mas em nos empenharmos na restauração da natureza.

Para conservar e restaurar a natureza, temos de manter o mais intactas possível as florestas do planeta. Além do seu papel de bastiões da biodiversidade, da sua capacidade de armazenamento de carbono e da sua contenção de agentes patogénicos que de outro modo poderiam devastar as populações humanas, ou então não nos admiremos com o efeito bumerangue. O Karma!

Todos os artigos